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'Diplomacia dos pandas': China usa animais para afinar relação comercial



A política chinesa de empréstimo ou aluguel de pandas como forma de incrementar ou manipular relações com outros países entrou em uma nova fase.

A afirmação é de estudiosos da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e consta em um estudo divulgado na publicação científica "Environmental Practice".

Segundo os pesquisadores, diferentemente do que ocorria no passado, o empréstimo de pandas está hoje muito mais condicionado a contrapartidas comerciais, e essa tendência deve aumentar daqui para frente.

Há cinco anos, um terremoto devastou o principal centro de preservação desses animais da província de Sichuan, no centro do país, e muitos pandas tiveram que ser transferidos de volta à região para impedir a extinção da espécie.Para chegar a essa conclusão, os autores analisaram empréstimos de pandas nos últimos 50 anos, além de trocas comerciais feitas pela China desde 2008.

A equipe de estudiosos descobriu que, depois de 2008, os empréstimos desses animais coincidiram com a homologação de acordos comerciais por recursos valiosos e tecnologia.

Para os especialistas, essa mudança na "diplomacia de pandas" é baseada no conceito de "guanxi", um termo chinês usado para descrever as redes personalizadas de influência, confiança, reciprocidade e lealdade.

Desde a fundação do Partido Comunista por Mao Tsé-tung, que usava pandas para facilitar discussões políticas com outros países, o animal se tornou um tesouro nacional na China.

Além de símbolo de preservação ambiental, os pandas são considerados excelentes ferramentas de marketing, capazes de turbinar a marca de qualquer zoológico. Foi o que aconteceu recentemente no Zoo de Edimburgo, na Escócia. A panda gigante Tian Tian, importada da China, tornou-se celebridade, e o mundo vem acompanhando de perto sua gestação.

Laços fortalecidos
Segundo a responsável pela pesquisa de Oxford, Kathleen Buckingham, dividir os cuidados com um animal tão precioso fortalece os laços que a China tem com um círculo seleto de países.

"De muitas maneiras, a China está testando a capacidade tecnológica global por meio de empréstimos de pandas. Os EUA provaram sua capacidade tecnológica para a China com o nascimento de um filhote de panda em solo americano. Será que Edimburgo pode fazer o mesmo?", pergunta.

O Zoológico de Edimburgo recebeu os pandas em 2011. Um montante anual pré-acordado, pago ao governo chinês, é destinado a projetos de conservação de pandas gigantes na natureza.

Pouco depois de a transferência dos animais ocorrer, alegam os pesquisadores, acordos comerciais com um valor aproximado de 2,6 bilhões de libras (cerca de R$ 9,2 bilhões) foram fechados entre a Escócia e a China envolvendo a venda de salmão, tecnologias de energia renovável e veículos da marca Land Rover.

Um porta-voz do governo da Escócia afirmou à BBC News que "fortalecer nossa relação trará benefícios substanciais aos dois países. Estamos comprometidos a trabalhar duro para aprofundar os laços existentes e estabelecer novas áreas de cooperação – uma abordagem que até agora está rendendo frutos".

Acordos de urânio
Com o acordo multimilionário para a venda de salmão à China, a Escócia desbancou a Noruega, que abastecia o país asiático com esse peixe há duas décadas. Os estudiosos atribuem a preferência do governo chinês pelos escoceses à concessão do Nobel da Paz (o vencedor do prêmio é escolhido por um comissão norueguesa) ao dissidente chinês Liu Xiaobo, que está preso. Após o ocorrido, a relação entre os dois países ficou tensa.

Os pesquisadores também afirmam no levantamento que os empréstimos de pandas ao Canadá, à França e à Austrália coincidiram com acordos de comércio de urânio, material que a China precisa para elevar sua capacidade nuclear nos próximos 40 anos.

Em 2011, o Japão também recebeu dois pandas da China, e os dois países esperam que o empréstimo possa melhorar as relações azedadas por uma disputa envolvendo duas ilhas no Pacífico.

"Além de facilitar a negociação de um acordo, o panda representa o início da construção de uma relação próspera e longa. Se um panda é dado a um país, pode não significar o fechamento de um negócio, mas o começo de uma relação, dado que se trata de um animal precioso e ameaçado de extinção", disse Kathleen.

A pesquisadora defende que os empréstimos de pandas são um expediente usado pela China para ganhar influência via "soft power", por meio de um selo visual global de aprovação.

"Desde 2008, a China precisou trazer de volta para casa alguns dos pandas que havia emprestado a outros países. O episódio tornou evidente os ganhos não tangíveis para a China dos empréstimos desses animais", disse Kathleen à BBC News.

Para Dean Cheng, da Heritage Foundation, centro de estudos de conservação em Washington, nos EUA, "não surpreende que a China use esse tipo de recurso a seu favor. Se isso levar à preservação dos pandas, é uma boa coisa. Ao mesmo tempo, os chineses podem se aproveitar do manto de responsabilidade ambiental".

Transparência
O empréstimo para o Zoológico de Edimburgo foi o primeiro do gênero em 17 anos. Os pandas chegaram em um voo fretado e tiveram cobertura da imprensa.

A atmosfera positiva criou a configuração perfeita para acordos comerciais subsequentes, diz Henry Nicholls, autor do livro "The Way of the Panda: The Curious History of China's Political Animal" ("O Caminho do Panda: A História Curiosa do Animal Político da China", em tradução livre).

Mas Nicholls argumenta que o capital ambiental de tais empréstimos é "dúbio", dada a falta de transparência sobre a destinação dos recursos financeiros relativos à transferência desses animais.

"Sabemos mais ou menos para onde vai o dinheiro, mas será que o zoológico tem conhecimento sobre como esse montante é discriminado e se ele é aplicado da maneira mais benéfica possível? Não temos a menor ideia disso."

Nicholls acrescenta que a influência da China sobre outros países continuará se fortalecendo à medida que o país levar a diplomacia dos pandas a um novo nível.

"A expansão da China ao redor do mundo – e seu uso de pandas – se tornou óbvia, ainda que a motivação para os empréstimos permaneça nebulosa. Não se trata mais de um expediente com fins de preservação, mas com ambições políticas e econômicas."




Fonte: G1
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